Calé - Lenda viva do motociclismo nacional


Antônio Claret, um amigo querido, e sua esposa Thereza, são aqui retratados em entrevista realizada no início de 2008, e publicada no portal de Moto Turismo Rock Riders. Hoje com 75 anos (na época da entrevista tinha 72 anos), e pilotando sua BMW, junto com sua esposa e sempre presente garupa, continua a alegrar seus inúmeros amigos, agora integrante do Carpe Dien Moto Turismo. Aproveite para conhecer este ícone do motociclismo nacional.

CALÉ - 72 anos de idade, mais de 60 pilotando uma moto. Uma lenda viva do motociclismo paulista. Roda até hoje. (obs: entrevista realizada em janeiro 2008).
Entrevistado por: Tuco
Fotos: Tuco, Policarpo Jr e arquivo pessoal do Calé
Texto introdutório e revisão: Policarpo Jr
Calé é uma espécie de "dinossauro do motociclismo paulista". Calé tem 72 anos (completados no dia 10/01/2008), 3 filhas lindas e a Dona Thereza (71), sua esposa e fiel garupa até os dias de hoje, claro.

Calé é um ser humano em extinção nos tempos modernos. Calé é "O"Mecânico de motos, o freguês vira cliente fiel e amigo. Calé é uma "enciclopédia viva, ambulante e falante". Um sabe-tudo de motos; tanto como profissional quanto como motociclista praticante. Calé já fez trilha de moto (até os 60 anos de idade). Calé trabalhou, organizou, pilotou e conviveu com motociclistas campeões na pista de Interlagos na capital paulista. Calé já foi piloto de motos na Polícia do Exército e por outras paragens.

Fotos tiradas no dia dessa entrevista na mecânica "Calé Motos".
A simplicidade desse lindo ser humano esconde
sua história no motociclismo brasileiro.
Calé é do tipo que começa a falar e cria-se uma "rodinha instantânea" ao redor dele. Ai ele começa a falar sem parar, como se estivesse rodando numa estrada sem fim. Conta várias dúzias de histórias vividas, sempre com moto na pauta. E entre umas palavras e outras, dá uns "assovios que só ele sabe fazer". Uns diriam que "Calé é peça rara ". Outros, "um diamante bruto precioso". No mais, quem o conhece, concorda: Calé faz parte da história do motociclismo paulista, se não nacional.
Ninguém consegue falar com o Calé, é ele quem fala, a gente só escuta. Não poderia ser diferente. Calé é simpatia por natureza. Calé roda de moto todo final de semana, com raríssimas excessões. Calé não pilota na estrada sem a Thereza na garupa, rodam juntos há mais tempo que muitos de nós tem de vida. São casados há 50 anos.   

Thereza nos anos 60. 
Calé diz (com virilidade): " Rodar na estrada é moleza, sossegado! Depois que a gente já pilotou no barro com chuva, atravessando rio, em campeonato de corrida na areia, no "Globo da morte em Circos", conserta motos todo santo dia há 55 anos, viaja de moto de São Paulo até Brasília (isso em 1963 quando Brasília mal existia no mapa e parte da estrada era de terra batida), que pegava a antiga rodovia de Santos - cheia de curvas e "rodando acelerado na chuva", que tem acumulado mais de 1.000.000 de quilômetros rodados, e boa parte deles com a Thereza na garupa. Depois de fazer tudo isso, Calé afirma: rodar na estrada hoje em dia (aos 72 anos) é moleza, sossegado! E Dona Thereza confirma, pois é testemunha ocular das "façanhas motociclísticas" do Calé. Para o Calé a idade não importa, o que vale é a atitude. 

Fotos dos inúmeros albúns do Calé e ele nos mostrando as mesmas
A entrevista foi realizada na tarde do dia 08/01/2007 (terça-feira) na mecânica "Calé Motos", que fica numa garagem grande na casa dele, na cidade de São Bernardo do Campo onde reside desde o ano de 1969. Dona Thereza sempre presente, é ela quem ajuda o Calé na mecânica atualmente.
CALÉ, 72 ANOS, dos quais roda de moto há mais de 60, e é mecânico de motos há 55 anos. A história do motociclismo paulista passa de alguma forma pela vida dele. Ou vice-versa. É impossível não respeitarmos o Calé. Ele tem idade para ser o pai ou avô da gente. E roda de moto na estrada até hoje, com maestria, pilotando uma BMW K 1100 RS. Fundador do Moto Clube Cavaleiros de Aço, no ABC Paulista.

A história desse homem no mundo do motociclismo começa nos anos 40 e vai até os dias de hoje. Deixe o Calé te conquistar "assoviando"... 

Calé na sua BMW com sua esposa Thereza na garupa.

Desde que idade o Sr. pilota motos?

CALÉ – Uma vez em Ribeirão Preto (interior de São Paulo) quando eu tinha uns oito anos, minha mãe realizava serviços de "Calceira", fazendo calças com alfaites. E eu levava as calças embrulhadas no braço para as entregas. Num cruzamento de trem desceu a chancela e eu fiquei ao lado de uma motocicleta Guzzi. O motociclista (vizinho da casa dos meus pais) me perguntou onde eu ia, e disse o endereço. Ele me convidou para ir na garupa dele, adorei! Daquela dia em diante, passei a gostar de motos. Com uns 10 ou 12 anos, vim morar em São Paulo, onde arrumei emprego numa mecânica de motos. Meu pai queria que eu aprendesse a profissão dele, que é de caldereiro, onde aprendi a ser retificador plano-cilindrico. Um dia fugi de casa porque queria trabalhar com moto e meu pai não permitia, passando 3 dias fora de casa. Fui trabalhar com um mecânico numa oficina de motos. Passados 3 dias, meu pai soube e foi me buscar, convidando-me a retornar para casa, na dependência de pagar uma pensão para tal. Como o combinado a receber na oficina era 3 vezes o valor da “pensão”, eu aceitei. Assim comecei minha vida como mecânico de motos, o que perdura até hoje.  


Com quantos anos o Sr. comprou sua primeira moto?

CALÉ – Com 16 anos comprei uma NS1 Max com câmbio de mão com quadro elástico. Comprei parcelado, a usava como minha condução.  Uma vez esta moto foi presa e fiquei amigo do soldado da Guarda Civil, que fazia a guarda de trânsito. Nossa amizade perdurou até ele vir a falecer. Depois tive uma CZ 125. 


Thereza (esposa e garupa, 71 anos) e Calé (piloto, 72 anos).
Não gostam de assistir TV aos domingos,
preferem rodar juntos de moto na estrada.


Depois o Sr. serviu na polícia do exército?

CALÉ - Quando servi o exército fiz teste para ser batedor em motocilceta e devido aos meus conhecimentos ganhei a vaga. Os outros candidatos eram todos “lambreteiros” (risos). Fiz o 8 (oito) com uma HD LH 1200cc dentro numa pista com mato na altura da moto. Fui batedor ponta de lança. Passei a cabo com 6 meses.  


O Sr. tem algo interessante para contar da época de quando serviu na polícia do exército?

CALÉ – Foi lá que eu aprendi a ser homem. Eu entregava as marmitas militares aos oficiais pilotando uma Harley Davidson (sic!). Um dia bati a moto. Eu vinha com a sirene ligada, mas o motorista olhou para o lado contrário, e meus três faróis ficaram presos na caixa de ferramentas do caminhão, a moto entrou por baixo, eu pulei. Quase peguei cadeia. Corri e procurei um telefone, naquele tempo não tinha orelhão, nada disso, e entrei em contato com o Batalhão da PE informando o acidente, ai eles enviaram um Jipão Pata-Choca para fazer a entrega das marmitas de comida aos oficiais. 


Calé pilotando na pista de Interlagos nos anos 50.
Data: Foto tirada em 2006 com câmera digital do seu albúm pessoal.


O exército influenciou muito sua personalidade?

CALÉ – Lá aprendi a ter honra, a ser homem. Porque por lá você errava e dançava. Tinha que dormir armado e fardado, quando em serviço. Na manhã tinha que estar com a calça passadinha, com os vincos, barba e cabelo feitos. Lá foi a melhor época de minha vida, até conhecer a Thereza. 

Uma vez tive que ficar cuidando (Corpo de Gala) de um morto em seu caixão. Duas horas da madrugada chegou minha vez de ficar na cabeceira do caixão (até hoje isto me arrepia). Eu via o rosto do falecido, e perto da boca e nariz, começou a sair uma espuma. Eu sai correndo, fui fazer a curva na porta, e o piso estava sendo lavado, com bancos uns em cima de outros, caí e levei todos os bancos comigo, virou uma bagunça! Cheguei na enfermeira afoito e disse; o rapaz ainda está vivo, tá respirando! Eu quase peguei cadeia. A partir dai aprendi que morto não faz mal a ninguém. Voltei lá na sala, mas fiquei na porta da sala, ao invés de ao lado do morto. 


Calé pilotou moto em trilhas até os 60 anos de idade.
E foi pilotos dos bons, cheio de fotos guardadas para mostrar.


Por quanto tempo o Sr. serviu na polícia do exército e depois qual foi seu rumo?  (anos 40 e 50)
CALÉ – Por quase 3 anos, antes de chegar a sargento.  Quebrei minha perna num acidente de moto perto da General Osório (centro da capital paulista), depois de 3 meses, tiveram que "consertar" minha fratura, porque estava fora de lugar. Eu fugi 3 vezes, com a perna engessada do Hospital Militar do Exército, e de ônibus, vestido com roupa de paciente do HME (hospital militar do exército). Estava louco pra ir para casa e rever as namoradas (risos). 
Depois dessa fase na PE, fiz exame para a Polícia Rodoviária. O Coronel Carlos Miranda, conhecido como “Vigilante Rodoviário” era aspirante na época. Mas eu não fui adiante, não quis continuar. Fiquei como mecânico “free-lancer” da Polícia Rodoviária, depois fui contratado pelo DER DERSA. Trabalhei nas épocas do Franco Montoro, Paulo Egídio Martins, Abreu Sodré e o Paulo Maluf, sendo na gestão deste, que sai da Polícia Rodoviária. Tinha uma BMW 750, onde a melhorei com pára-brisas da Harley. Eu buscava as motos por todo o estado de São Paulo para consertar. As motos da polícia tinham prioridade e atendia também clientes particulares. 

Nesta época estava também engajado em atividades em Interlagos (pista de corrida da cidade de São Paulo), como preparador de motos, como a do piloto Mário Hélio Santos, preparando uma RD 350 e outra TZ especiais para corridas. 

Que saudades que tenho dessas épocas... faz tanto tempo que não me lembro mais as datas.

(Calé durante toda a entrevista ficou nos mostrando inúmeros "albuns de fotos" com toda sua história no motociclismo. Foi emocionante escutá-lo falando sobre suas experiências.)



Kátia, filha do Calé e Tuco, motociclista que ajudou
nessa entrevista, na mecânica "Calé Motos"

O Sr. abriu mecânica aonde? (anos 50 e 60) 

CALÉ – No bairro do Ipiranga (capital de SP) onde preparava motos para corrida. Eu tinha duas 125cc que tiveram como piloto o Sato e João Pironi. Os pilotos me davam seus trófeus como reconhecimento ao meu trabalho, mas eu os devolvia, pois eram eles que pilotavam e ganhavam as corridas. Aquela época foi boa, conheci o Emerson Fittipaldi, Moco, Airton Senna (anos 70 e 80) e Rubinho Barrichello (anos 80 e 90), os quais corriam de kart em Interlagos. Em 1969, mudei a mecânica para onde estou hoje em São Bernardo do Campo (Grande SP).   


E além de mecânico, o que mais o Sr. fez nessa época das corridas de motos em Interlagos?

CALÉ – Fui Comissário de Pista, Diretor de Pista, Comissário de Box, conforme a necessidade do momento, através de votação. Em 1954, eu era "colocador oficial" de óleo nas motos da CASTROL. Quando houve a primeira corrida de motos 500cc internacional no Brasil. A primeira Triumph de São Paulo da época moderna, quem foi buscar fui eu no Rio de Janeiro. 


Com mais de 60 anos de experiência como piloto de moto e mecânico, quais seus conselhos?

CALÉ – Tem muito piloto de moto que esquece que está pilotando uma moto. Numa moto, sempre é preciso verificar as condições dos pneus, lubrificação da corrente, óleo de motor, situação dos freios, lineariedade da moto (moto não pode andar de lado), calibragem dos pneus (com garupa e sem garupa é diferente - veja no manual) e por ai vai, numa moto não podemos rodar se algum item estiver com problema. 

Aconselho trocar o óleo a cada 3000km, e a cada 3 trocas, trocar o filtro de óleo. Outro item importante é o filtro de ar que é responsável para a correta alimentação do motor, influenciando diretamente o consumo de combustível. Outra dica é sempre manter a moto limpa e depois de lavá-la, antes de guardá-la na garagem, dar uma volta para secá-la por inteiro.

Ser motociclista é um estado de espírito. Eu converso com minha moto. Você tem que conhecer sua moto como conhece sua vida, se você não procurar conhecê-la, ela te ferra! Quando você pensa que você é o dono da situação, você cai. Quem procura acha. Eu comparo moto com mulher..., bobeou, abusou, dançou!

Calé diz: acabou a entrevista? Porque quero rodar de moto!


Policarpo e Calé, num passeio de moto feito no ano de 2007,
organizado pelo Carpe Dien Moto Turismo, para a cidade de Boituva
(interior de SP). A Dona Thereza foi na garupa dele.
Calé, agradeço a Deus poder ter o privilégio de conviver com uma pessoa como você e a Dona Thereza. Que essa matéria sirva de bom exemplo para a vida de muitos motociclistas. Obrigado. Você só merece respeito e nosso silêncio quando estivermos ao seu lado. Bjos no seu coração e no da Dona Thereza. Policarpo Jr - Rock Riders

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