Rota 66 - EUA - "Diário de viagem"

Marcão VTX é amigo-irmão motociclista, bem como Policarpo criador e editor do Rock Riders Portal de Motociclismo de onde esta matéria foi compilada na íntegra. www.rockriders.com.br.

Marcos EckardtMarcos Eckardt, 37 anos. Percorreu em setembro/2006, a lendária Rota 66 - EUA. E por e-mail, com muitos detalhes e comentários pessoais, conta ao Rock Riders um pouco da sua aventura.  
Marcos, cruzou, literalmente, o continente americano. De um lado a outro. Fez isso numa viagem de moto. Percorreu a Rota 66 inteira (mais de 4000km), fez vários outros percursos por outras estradas dos EUA, rodando mais de 7000 KM em sua viagem. Passou por 8 estados e centenas de cidades. Conviveu com os americanos. Organizou e fez tudo sozinho. Cumpriu sua missão. Se superou.
Main Street - Rota 66Hoje, Marcos é mais rico culturalmente e como ser humano. E nós, ao lermos seu relato, aprendemos muito sobre a "Historic Route 66".



O RELATO É EXTENSO...  Se for por falta de tempo, faça sua leitura em vários dias. O Portal ROCK RIDERS está sempre à sua disposição. Todo conteúdo é armazenado em banco de dados para consultas posteriores. 

Mapa de toda a trajetória da Rota 66
Mapa de toda a trajetória da Rota 66

RR - Nos conte como foi que você se planejou sozinho para ir rodar a Rota 66 integralmente? 
Marcos - Ao contrário de viagens a lugares hinóspitos como o deserto do Atacama, os Andes, etc, a viagem à Rota 66 não exigiu grande planejamento. Programei minhas férias para o período de 11 de setembro a 11 de outubro de 2006.  Como 7 de setembro (uma quinta-feira) e 12 de outubro (também quinta-feira) eram feriados acabei por adicionar 6 dias às férias. O passo seguinte foi entrar em uma agência de viagens e comprar a passagem.

Escolhi um vôo São Paulo – Chicago com uma parada de uma semana em Nova Iorque. A idéia era, além de conhecer uma das cidades mais importantes dos EUA, me ambientar ao “american way of life” antes de cruzar o país. Passagem comprada só restava escolher a moto e providenciar a locação. Para isto entrei em contato com uma agência de moto turismo e captei diversas informações a respeito da viagem pela Rota 66, locação de moto, etc.
Marcos numa Chopper, na fábrica da Harley nos EUA
Marcos numa Chopper, na fábrica da Harley nos EUA

Antes de fazer qualquer viagem acho muito importante conversar com pessoas que já fizeram o percurso como forma de evitar erros simples (como logos trechos sem postos de gasolina, sentido da viagem para evitar pilotar contra o Sol, ...) e ajustar o nível de expectativa. O Carlos também me ajudou a fazer a reserva da moto pelo site da Eagle Rider (www.eaglerider.com). É bastante simples: basta escolher o modelo, ponto de partida (retirada da moto) e ponto de chegada (devolução da moto) e pedir para que o site faça o cálculo do valor já considerando impostos, seguro e taxa de devolução (quando aplicável). Optei por uma Harley-Davidson Road King a ser retirada em Chicago no dia 18 de setembro e devolvida em São Francisco no dia 13 de outubro. O valor total da locação foi de USD 4.090 divididos em 3 parcelas de USD 818 pagos via boletos bancários enviados por e-mail.


Harley Davidson Road King, utilizada pelo Marcos em toda Rota 66
Harley Davidson Road King, utilizada pelo Marcos em toda Rota 66
Por último fiz uma reserva no albergue da juventude de NY pra garantir que teria um lugar pra ficar assim que chegasse. A confirmaçào da reserva também é importante quando do preenchimento da papelada antes da Imigração. Aproveitei o câmbio favorável e comprei dólares e verifiquei se o cartão de crédito tinha um limite razoável.

Agora só precisava me preocupar em curtir...


RR - Ai partiu para Nova Iorque (NY) e...


Marcos -
 Embarquei para Nova Iorque no dia 8 de setembro. A primeira semana da viagem foi bastante interessante. Além de conhecer os principais pontos turísticos de Manhattan (5Avenida, Empire State Bldg, Estátua da Liberadade e Ellis Island, Broadway, Museu de História Natural, Guggenheim, Central Park, Harlem, Wall Street e Yankees Stadium) passei a maior parte do tempo caminhando pela cidade e respirando a atmosfera nova-iorquina.
Estátua da Liberdade - NY
Estátua da Liberdade - NY

A cidade estava vivendo um clima de apreensão devido à presença do presidente Bush por ocasião das comemorações do 11 de setembro. Muita polícia nas ruas e alguns protestos isolados. De maneira geral Nova Iorque é bastante organizada e limpa. Ë facil de encontrar endereços e não existe a sensação de insegurança que temos em São Paulo. É digno de nota a educação com que todos (turistas ou não) são tratados. Para mim esta primeira semana serviu como laboratório. Com os demais hóspedes do albergue conversava sobre viagens e com os americanos sobre a precepção deles sobre a política externa americana, economia, consumo e meio ambiente.  


Vista do Central Park
Vista do Central Park

RR - Então, ficou em NY uma semana, depois foi pra Chicago, onde começa a Rota 66, e...

Marcos - De Nova Iorque segui de avião para Chicago. Fiquei hospedado na casa de um amigo. No dia 18 de setembro passei na loja da Eagle Rider para a retirada da moto. Tudo correu bem e sem complicações. Minhas primeiras voltas de motoca em território americano foram pelos subúrbios de Chicago. Um bom treino pra ir me acostumando com o trânsito. Fui até Aurora, a uns 50 km de Chicago, visitar uma amiga dos tempos de colégio que mora atualmente nos EUA. Aproveitei os dias pré-66 para conseguir informações sobre a rota. O mais indicado é dar uma passada nos “visitors bureaus” e se informar nas associações da Route 66 que existem em cada estado. Para conseguir mapas precisos da 66 o melhor é comprar um dos guias disponíveis em grandes livrarias. Escolhi um pequeno e bem resumido mas que trazia um mapa da 66 por estado e indicava as maiores cidades. 

De Chicago resolvi pegar a estrada em direção a Milwaukee (onde fica a fábrica da Harley), circundando o lago Michigan pelo lado oeste até Racine. É um passeio que se pode fazer em um dia Voltei a Chicago por um caminho paralelo e subi pelo outro lado do lago até Manistee (parte leste), perto da fronteira com o Canadá. É uma região muito bonita e vale à pena ser explorada. Ambos os trechos contemplaram quatro estados americanos: Illinois, Wisconsin, Indiana e Michigan. Enfim fez-se hora de começar a Rota 66.

Loja da Harley Davidson
Loja da Harley Davidson
                              

 

RR - Marcos, você antes de rodar na Rota 66, fez questão de conhecer um pouco da história dessa lendária estrada. Nos conte o que aprendeu sobre a Rota 66... 

Marcos - A idéia de uma estrada que ligasse Chicago à costa do Pacífico tornou-se realidade em 1916, ano em que foi aprovado um plano rodoviário nacional. Oficialmente o número 66 foi destinado à estrada de Chicago a Los Angeles em 1926. Contrariando muitas estradas do seu tempo, o traçado da Route 66 não era linear mas sim diagonal, ligando centenas de  comunidades rurais permitindo o transporte de cereais. A importância desta estrada transformou-a em 1930 na maior rival do transporte ferroviário.

Trecho da Rota 66
Trecho da Rota 66
John Steinbeck, em "As Vinhas da Ira" de 1939, imortalizou a Route 66. O filme cunha o nome "Mother Road" e narra a história de pessoas que fogem da Grande Depressão procurando outra oportunidade na costa do Pacífico. Para muitos, a Route 66 simbolizou "o caminho para a oportunidade". 

Passada a segunda Guerra Mundial os americanos dispunham de uma grande rede viária. Milhares de soldados, marinheiros e pilotos que receberam treinamento militar na Califórnia, Arizona, Novo México, Oklahoma e Texas abandonavam agora o inverno de Chicago e Nova Iorque e dirigiam-se para as terras mais quentes do sudoeste. 

Um desses emigrantes foi Bobby Troup, um antigo pianista e ex-capitão da Marinha. Com um mapa da Route 66 nas mãos escreveu uma música chamada "Get your kicks on Route 66" e que se tornou uma música popular para inúmeros motoristas que viajavam constantemente pela 66.


Em 1956, os Estados Unidos começam a construir a sua nova malha viária a partir da assinatura do Interestate Highway Act. Em 1970 praticamente todos os segmentos originais da Route 66 foram substituídos por modernas rodovias mas ainda hoje permanecem trechos originais da 66 que passam por pequenas comunidades parcial ou totalmente abandonadas. A manutenção desses trechos deu-se graças à criação das associações de defesa da "Mother Road" (listadas abaixo), que colocaram em toda a sua extensão placas indicativas da estrada. Atualmente cerca de 85% da estrada ainda é transitável.  Em 1984 aRota 66 foi oficialmente desabilitada como rodovia federal. Ela já não consta nos mapas oficiais. 

Algumas curiosidades

  • A Route 66 tem a extensão aproximada de 4.000 km
  • A estrada atavessa 8 estados, 200 cidades e 3 fuso-horários
  • A Route 66 começa em Chicago e acaba em Los Angeles (Santa Monica). Viajar no sentido oposto é historicamente errado.
  • Em 1926 somente 1200 km haviam sido pavimentados. Só em 1937 é que a Route 66 foi pavimentada de uma ponta a outra.
  • Devido a uma mudança no traçado em 1937 há uma interceção onde a Rota 66 cruza ela mesma no centro da cidade de Albuquerque, Novo Mexico. Neste ponto pode-se ficar na esquina da Route 66 com a Route 66.
  • A Route 66 também é conhecida por "The Mother Road", "The Main Street ofAmerica" e "The Will Rogers Highway".

RR - E depois de 1 semana em NY e outra em Chicago, você começa a rodar pela ROTA 66. Nos conte como foi e o que vivenciou...
Marcos - No dia 23 de setembro finalmente arrumei a moto e parti de Chicago para a Rota 66. Era um sábado por volta de duas da tarde. O tempo estava meio nublado e ameaçava chover. Nunca vou me esquecer deste dia. Nunca vou me esquecer da sensação de iniciar uma longa jornada que me proporcionaria muito aprendizado. Toda a pouca bagagem foi acomodada nos dois alforges de fibra da moto (que podiam ser trancados), numa pequena mochila (que foi presa ao bagageiro do sissi bar) e num pequeno alforge de tanque, desses que ficam presos por meio de imãs, que tinha levado do Brasil. Este é um dos itens que passei a considerar imprescindíveis para viagens de longa distância. Nele coloquei tudo que tinha de mais importante e que poderia utilizar com frequência (como o guia, algum dinheiro trocado em moedas, documentos, óculos escuros, filtro solar, etc). Este alforge mostrou-se muito prático toda vez que estacionava a moto para conhecer algum lugar, almoçar ou mesmo caminhar um pouco.

A rota 66, segundo a maioria dos guias, começa na Buckingham Fountain em Chicago. Não há indicações dela neste ponto. Pilotei pelos subúrbios da cidade pela Joliet Road até que caiu um temporal. Estacionei debaixo da cobertura de um supermercado e esperei a chuva passar pensando em que bela maneira de se começar a Rota 66. Depois de feita a viagem vi quanta sorte eu tive pois em toda a minha estadia nos EUA este foi o único dia em que peguei chuva. Neste primeiro dia até Pontiac, uma pequena cidade entre Chicago e Sringfield, ainda no Estado de Illinois. Honestamente não senti na 66 o glamour dos filmes e das histórias. Na verdade fiquei é bem decepcionado pois uma das primeiras vezes em que avistei a Route 66 original ela havia sido transformada em uma ciclovia e o trânsito para veículos automotores estava proibido.




Trechos da Rota 66. 
Fui entender o porquê disto algum tempo mais tarde, já mais para o meio do caminho. Na realidade a Rota 66, como mencionado anteriormente, teve seu período áureo há muitos anos atrás. Com o advento das Interestaduais ela perdeu importância, caiu em desuso e foi abandonada. Como a 66 corta todas as pequenas cidades em seu caminho ela começou a ser utilizada como via de serviço. É bastante comum no caminho ver placas indicando “Service Road” que é, na realidade, a Rota 66. Só recentemente com a formação das Associações é que alguns trechos foram recuperados. Como estas Associações são estaduais a conservação e manutenção da 66 também difere de estado para estado. Em alguns deles ela foi duplicada e ganhou sinalização já em outros ela ficou abandonada e tornou-se praticamente intransitável. Não é incomum encontrar um “dead end” ficando como única alternativa retornar e pegar um trecho de interestadual até que se encontre alguma placa que indique uma entrada para a 66.

O roteiro da 66 pode ser visto de forma simplificada no mapa abaixo. Ela começa em Chicago (Illinois) e termina em Santa Monica (Califórnia). A distância total pode variar pois em determinados pontos pode-se optar por percorrer o trechos utilizados entre 1935-1942 ou entre 1942-1954. Nem sempre a sinalização é clara e é aconselhável pedir informação para as pessoas que moram na localidade sobre as condições da estrada. Via de regra acabei por escolher sempre o trecho de construção mais recente. 


Mapa de toda a trajetória da Rota 66
Mapa de toda a trajetória da Rota 66
A Rota 66 atravessa 8 estados americanos e passa por aproximadamente 200 cidades. Nos primeiros dias de percurso parava em praticamente todos os pontos de interesse descritos no guia ou que encontrava pelo caminho como postos de gasolina e hotéis abandonados, cafés, lanchonetes (há realmente muitas pelo caminho), museus, parques e atrações. Fato é que quanto mais se interrompe um percurso mais cansativo ele se torna. Isto significou que em determinado momento comecei a ser mais crítico em relação a quando parar e acabei, conscientemente, por deixar pra trás alguns dos pontos mais conhecidos da 66, principalmente aqueles que ficavam dentro das grandes cidades. Dependendo do horário em que chegava a um grande centro optava por pegar um pedaço de interestadual que circundasse a cidade para não correr o risco de ficar preso no trânsito ou peder tempo atravessando avenidas repletas de semáforos. Além disso as opções de hospedagem mais baratas são aquelas que ficam fora dos grandes centros urbanos, sejam em pequenas cidades satélites ou à beira das rodovias. Os preços variam bastante. Encontra-se quartos em motéis por aprox. 50 dólares. O suficiente para um banho quente, uma olhada no canal do tempo e uma olhada no mapa (importante para planejar o trecho do dia seguinte) e uma boa noite de sono. Em algumas cidades acabei optando por pernoitar em hotéis um pouco maiores, e naturalmente mais caros (de 80 a 120 dólares), devido à facilidade de acesso à internet e por terem café da manhã incluídos no preço. Dependendo do horário em que chegava aproveitava o resto do dia para caminhar um pouco pelas redondezas e fazer um pouco de exercício. 

Lago Michigan. Marcos com seu colete do clube de Moto Turismo Carpe Dien
Lago Michigan. Marcos com seu colete do clube de Moto Turismo Carpe Dien 

Para saber um pouco mais sobre cada cidade e suas atrações sugiro a compra de um dos vários guias disponíveis no mercado ou uma pesquisa na Internet. Basicamente, e esta foi uma das grandes lições aprendidas nesta viagem, a Rota 66 foi construída com o objetivo de interligar um grande número de cidades e consequência natural disto foi o surgimento dos serviços e do comércio à ela vinculados. Quando a rodovia foi desabilitada serviços e comércio esmoeceram e foram parcial ou totalmente abandonados. Com a reativação da rodovia como rota turística surgiram novas oportunidades de negócio e praticamente tudo o que pudesse ser de interesse, mesmo que mínimo, passou a ser atração e fonte de renda. Para se ter uma idéia motéis e lanchonetes construidos muito recentemente (mas no estilo dos anos 50) ganharam a “chancela” da 66 e passaram a fazer parte do rol de atrações históricas e ‘imperdíveis” como forma de atrair o maior número possível de pessoas e os dólares que vêm com elas. Esta é a história da 66. A história de gente que  dia após dia trabalha para ganhar o seu dólar. Neste aspecto um guia ou uma pesquisa na Internet ajuda muito a separar o joio do trigo na hora de se definir o que relamente vale à pena ser visto do que é mera “embuste comercial”.

Das cidades por que passei, atrações que vi e situações que vivenciei gostaria de relatar algumas das que considerei como sendo as mais importantes de toda a viagem.

No 19o dia de viagem passei por uma pequena cidade no estado de Oklahoma chamada Commerce. É uma dessas cidadezinhas que se atravessa em 5 minutos e não se vê ninguém nas ruas. Em dado momento passei em frente a uma oficina de motos. Resolvi parar para verificar o nível do óleo, coisa que vinha negligenciando a algum tempo. Fui atendido por uma cara muito simpático chamado Jim, que se mostrou menos curioso pelo fato de eu estar fazendo a 66 e muito mais pelo fato de eu ser brasileiro. Enquanto esperávamos a moto esfriar conversamos longamente sobre o Brasil, situação econômica e a intervenção americana no Iraque e vimos mapas detalhados da 66 (ele me deu um monte de dicas sobre quais trechos pegar). Contei a  ele sobre a semelhança entre a oficina dele e a do mecânico onde eu costumo levar minha moto pra fazer revisão (o Furaco lá na Barra Funda) e de como os dois tinham estilos de vida parecidos, no que ele prontamente respondeu: “Então este cara deve ser gente fina. Vou mandar uns brindes para ele.” Encheu uma sacola com canetas e imãs que eu trouxe para o Brasil e entreguei ao Furaco.

Parada em Commerce na Oficina do Jim
Parada em Commerce na Oficina do Jim 

No 21o dia de viagem cheguei a Santa Fé. É uma cidade relativamente pequena, onde o centro ainda preserva a  arquitetura em estilo espanhol com seus arcos e a “plaza mayor”. A cidade respira nostalgia e é muito agradável caminhar pelas ruas e entrar nas lojinhas para ver o artesanato. Um dos meus passatempos preferidos era escolher um café que ficasse em um espaço amplo e beber vários expressos observando o vaivém das pessoas. Esta também é uma excelente maneira de se conversar com os “locais” e descobrir quais das atrações mencionadas no guia valem realmente à pena de serem vistas e quais as que não estão no guia e são imperdíveis, mesmo porque por ser uma cidade preservada o afluxo turístico é grande e o preços tendem a inflacionar. Assim sendo nada melhor do que informação local para bem empregar os parcos dólares levados. Se o dia for de sorte você poderá até ser convidado para jantar e eventualmente participar de alguma festa... 

Rota 66 e seu silêncio
Rota 66 e seu silêncio

No 23o dia cheguei a Flagstaff, a cidade mais próxima para uma das grandes atrações do percurso: o Grand Canyon. Flagstaff em si não tem atrativos e serviu basicamente como ponto de pernoite para a excursão do dia seguinte. A distância de Flagstaff até a entrada principal do parque onde fica o Grand Canyon é de aprox. 100 milhas. Acordei bem cedinho e curti o nascer do Sol por entre os pinheiros rodando com a Road King. À entrada do parque há um Centro de Visitantes onde se pode ter uma idéia da dimensão do canyon, por onde passa a estrada e quais os melhores pontos pra curtir o visual. É legal também aprender um pouco sobre como ele se formou, a presença da vida selvagem e qual o vínculo da canyon com o Rio Colorado.  
Paisagem do Grand Canyon
Paisagem do Grand Canyon
A primeira visão do canyon é inesquecível e inquietante pois nos dá a exata noção de como somos pequenos perante a grandiosidade da natureza. Nos mirantes menos frequentados pelos turistas (normalmente aqueles que ficam mais afastados dos estacionamentos) é possível, além de se maravilhar com a paisagem, curtir o silêncio e pensar sobre a vida. Há pessoas que passam as férias caminhando pelo lugar percorrendo as velhas trilhas utilizadas pelos índios. Saí do parque pelo lado menos utilizado passando pela cidade de Cameron. Há neste lugar uma reserva natural onde podem ser vistas algumas ruínas de um vilarejo construído pelos índios. Na entrada da reserva conheci um “ranger” (guarda-florestal) descentente de índios mojave que me explicou como os mojave, originários do Alaska (acreditem!), foram parar ali. Mas o mais importante para mim foi descobrir que a situação dos índios americanos (exceto por uma pequena minoria) não difere muito da dos índios brasileiros. O ranger me contou que no meio da planície desértica do Colorado fica aldeia da família dele. Foram sendo empurrados para o meio do nada e praticamente abandonados, confinados a uma aldeia sem infra-estrutura básica, como água, energia elétrica e saneamento (notaram a semelhança?). Apesar de estrangeiros não serem bem-vindos ele poderia arranjar uma visita. Agradeci o convite mas desisti pois a moto, mesmo de tanque cheio, não teria autonomia suficiente para ir e voltar e no caminho não haviam postos de combustível... 

Nos 24o e 25o dias saí da Rota 66 e segui pela interestadual rumo a Las Vegas. A rodovia passa por uma região desértica que lembra bastante a paisagem lunar, Na divisa dos estados do Arizona e Nevada o Rio Colorado foi represado para a construção de uma usina hidrelétrica que ganhou o nome de Hoover Dam. É uma obra de engenharia fantástica na mesma proporção que é gigantesca. Vale a pena parar e ficar algumas horas apreciando o lugar. Para todos os que fizerem o percurso de moto aí vai uma dica: no estado de Nevada o uso do capacete é obrigatório (ao contrário da maioria dos demais estados americanos por onde passa a Rota 66). É aconselhável colocar o capacete assim que cruzar a fronteira pois lá a polícia não costuma aliviar. 

Vista de Las Vegas. Foto tirada da réplica da Torre Eiffel.
Vista de Las Vegas. Foto tirada da réplica da Torre Eiffel.

Cheguei a Las Vegas num domingo no final da tarde. Imaginei que por ser final de final de semana haveria pouco movimento pois as pessoas estariam retornando para suas cidades de origem. Lêdo engano. A cidade estava fervendo. A impressão que tive é de que Las Vegas é uma cidade-arapuca. Nas avenidas principais muita luz e o esplendor dos grandes cassinos, todos muito convidativos à jogatina. E se no Rio de Janeiro a praia é um espaço democrático em Las Vegas este espaço é o cassino. Lá se misturam todos os tipos de gente, desde os endinheirados, passando pelos excêntricos e os curiosos até, naturalmente, os perdedores. E basta caminhar um pouco e sair deste centro iluminado para se ver a verdadeira Las Vegas. Para mim é a cidade 
americana que representa a permissividade.

No 27o dia de viagem atravessei o deserto de Mojave, estado da Califórnia. Este seria o último grande obstáculo natural a ser transposto antes de chegar ao final da Rota 66. Passei a noite anterior na cidade de Needles. Enchi o tanque até o máximo, verifiquei o nível de óleo e comprei bastante água, afinal neste trecho a 66 descola-se da rodovia principal e é, por este motivo, muito pouco transitada. Havia conversado com alguns moradores e segundo eles existia o risco de ficar preso no meio do deserto caso acabasse o combustível ou a moto quebrasse pois ninguém pararia pra ajudar. Como não tinha celular ou qualquer outro meio de pedir ajuda fiquei bastante apreensivo e resolvi sair quase de madrugada antes que o Sol nascesse e o deserto ficasse escaldante. Acho que exagerei pois passei o maior frio. Pelo menos o Mojave me presenteou com um nascer do Sol como poucas vezes havia visto. O fato de ter saído bem cedo também me permitiu parar a moto no meio do nada, desligar o motor e escutar o barulho do vento. Confesso que fiquei horas neste exercício...

Deserto Mojave no estado da Califórnia. A Route 66 foi ficando para trás...
Deserto Mojave no estado da Califórnia. A Route 66 foi ficando para trás...


O último trecho da foi um dos mais cansativos. Perto de Los Angeles a 66 confunde-se com um emaranhado infindável de rodovias, estradas ruas e desvios. Não há praticamente nada de interessante que ver, muito trânsito e barulho. Ainda encontrei disposição para rodar por Hollywood Boulevard e Beverly Hills antes de finalmente chegar ao Píer de Santa Monica o ponto final da Rota 66. A sensação de se chegar ao Oceano Pacífico é indescritível. Após 5.000 kms não há mais como seguir em frente em direção ao oeste. A brisa do mar é o sinal claro de que a etapa foi cumprida. De Los Angeles segui pela 1, a rodovia que margeia o Pacífico até São Francisco. No início do trecho passa-se por lugares badalados como a praia de Malibu com suas mansões e resorts. O trânsito é intenso (inclusive de Ferraris e Porches). O trecho mediano da 1 é o mais bonito e cênico. Não foram poucas as vezes que parei para apreciar a paisagem e curtir o ar puro. Antes de chegar a São Francisco passei por duas cidades que me chamaram a atenção: Carmel e Monterrey. A primeira é pouco maior que um bairro e repleta de galerias de arte, convidativa para uma caminhada. Na segunda pode-se ver os leões marinhos.

A chegada a São Francisco marcou o final da viagem. Há algumas opções de albergues. Optei por ficar no albergue à beira da baía. São Francisco se parece bastante com a cidade do Rio sendo a Golden Gate o equivalente à ponte Rio-Niterói e a baia de São Francisco à baia de Guanabara. Devolvi a moto na loja da Eagle Riders depois de rodar pelas ruas íngremes da cidade. Aproveitei os últimos dias para caminhar pelo Fishermans Wharf (um píer repleto de lojinhas), visitei o aquário e fiz um passeio para Alcatraz. Conheci o centro da cidade e visitei o bairro hyppie onde ficam as melhores lojas de CD.

RR - E ai acabou a viagem! O que você tem a nos dizer agora que fez essa linda viagem pela Rota 66? Marcos - A Rota 66 vai deixar saudades! Posso dizer que foi uma experiência incrível e que recomendaria a viagem a todos os que gostam de conhecer novos lugares em duas rodas. Pude ver muito do país e aprender bastante sobre os americanos. Nos trechos em que rodei pelas interestaduais a malha viária americana mostrou-se impecável. Os motoristas via de regra respeitam os motociclistas e não forçam passagem mesmo quando se pilota abaixo da velocidade máxima permitida. Talvez não faça a Rota 66 novamente mas certamente voltarei para rodar mais alguns milhares de quilômetros por lá.

Chegada em Santa Mônica. O Oceano Pacífico marca o fim da Route 66.
Chegada em Santa Mônica. O Oceano Pacífico marca o fim da Route 66.



Marcos Eckardt, 37 anos. Formado em Economia. Controller de Supply Chain de Multinacional do setor químico. Pulou de pará-quedas há 14000 pés de altura, fez de bicicleta o "Caminho de Santiago de Compostela" e rodou pela Rota 66 - EUA, em viagem solo. Roda de moto há 10 anos. Membro do Conselho Consultivo do Rock Riders. Integrante do Carpe Dien Moto Turismo, Regional São Paulo.  

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